Surf Motel

2.2.15

Para ouvir durante a leitura: Blood and Tears - Danzig
Florida, 1971.

Grace estava na sacada, observando a luz alaranjada do sol poente iluminar as copas dos coqueiros na avenida. Seus cabelos longos e loiros balançavam levemente com o vento, e seus olhos azuis estavam divagando pela paisagem. Finais de tarde sempre foram tristes para ela, por algum motivo desconhecido. O pôr-do-sol a deixava reflexiva e, ultimamente, a fazia pensar na sua vida, e nos motivos que a trouxeram para o lugar em que ela se encontrava agora, e tantas vezes se encontrou: Num quarto sujo do Surf Motel, esperando o carro chegar.
Esse carro já fora um toyota, um opala, três vezes um ford thunderbird vermelho... Ela achava engraçado como, geralmente, o carro tinha a ver com o estilo do cliente. Mas há três meses, o carro era um Mustang Shelby 1967 azul marinho, tão lindo e charmoso quanto o dono.
Ela conhecera Michael na boate onde trabalhava - onde mais seria? Mas, diferente dos outros, ele a convidou para sair. Não perguntou o preço, simplesmente a levou para um bar conhecido na região. Ele abriu a porta do carro para que ela saísse, como um perfeito cavalheiro, e a guiou pela mão até o estabelecimento.
Depois de duas bebidas e algumas conversas aleatórias (ele era de poucas palavras), Michael simplesmente se levantou sem dizer nada, caminhou até o jukebox e escolheu In Dreams, um clássico do Roy Orbison. E então tirou Grace para dançar.
Aquela noite terminou no quarto 306 do Surf Motel. E lhe rendeu 300 dólares.
Michael era um rapaz um tanto misterioso e pouco falava a respeito da sua vida. Mas Grace se tornou uma constante para ele, e seus encontros foram ficando cada vez mais frequentes. Primeiro uma vez na semana, depois duas, e agora eram 3 vezes. Quando Michael entrava na boate, seus olhos procuravam Grace. E o sorriso dela se iluminava quando ela o via.
Foi a partir daí que Grace começou a sonhar com Michael, na maioria das vezes enquanto estava acordada.
Michael a fazia ter alguma esperança na vida. Com ele, as coisas pareciam dar certo. Ela sonhava no dia em que ele a tiraria do lugar lamentável onde morava, e daquela boate deprimente. Numa noite, depois do sexo, Grace estava deitava com a cabeça no peito de Michael, e então indagou: "Você vai me tirar da boate? Vai me levar com você?". Ele sorriu para ela e permaneceu calado, olhando para o teto enquanto terminava seu cigarro. E aquilo fora o suficiente para encher o coração da moça de esperança e paixão.
Apesar de todos os momentos com Michael serem perfeitos, ele a mantinha distante da sua vida pessoal. Ela gostaria de saber seu sobrenome e onde ele trabalhava. Ela sabia que noventa por cento dos seus clientes eram casados, mas Michael não usava aliança. Será que morava sozinho? Eram perguntas que Michael não respondia.
Então, na última noite em que se encontraram, Grace apanhou a carteira de Michael para tentar descobrir algo que acalentasse a sua curiosidade, enquanto ele estava no banheiro. Ela encontrou sua identidade: Michael Richard Moore, nascido em 13 de fevereiro de 1943. Sorriu ao constatar de que ele era apenas cinco anos mais velho do que ela. Encontrou também uma receita de Flufenazina - o que ela não tinha ideia do que significava - e um papel amassado com alguns números de telefone. Rapidamente anotou os tais números, sem saber ao certo o por quê, e deixou a carteira do jeito em que estava. Michael voltou calado, como sempre, e ela sorriu.
Dos três números, Grace ligou somente para o primeiro. Uma voz feminina e rouca atendeu. Quando Grace disse procurar por Michael Richard Moore, a voz perguntou quem era:
- A namorada dele.
- O Michael não vem pra casa há muito tempo, querida. Acho estranho ele ter passado o meu telefone.
- Desculpe-me, mas o que a senhora é dele?
- Mãe.
O silêncio pairou por algum tempo porque, de repente, Grace não sabia muito bem o que dizer. Só sentia-se aliviada por não ser nenhuma namorada ou esposa do outro lado da linha.
- Ele está bem? - perguntou a mãe.
- Sim, está ótimo.
- É um alívio saber que ele ainda está vivo.
Grace, engoliu em seco, e ficou calada, até que a mãe de Michael quebrou o silêncio:
- Quando o vir, diga a ele para vir me visitar.
- Claro, eu direi.
E acabou aí.
O Mustang chegou no estacionamento interrompendo os devaneios de Grace. Michael sabia que Grace a observava da sacada no andar de cima mas, mesmo assim, não houve troca de olhares. Ele só travou seu carro e subiu as escadas, como sempre fazia: sem rodeios.
Grace o esperava encostada na porta, sorrindo. Ele só a olhou quando chegou mais perto, e então sorriu também. Ela abriu a porta do quarto e ambos entraram.
O relacionamento deles era intenso. Tão logo a porta era fechada, Michael agarrava Grace pela cintura, às vezes levantando-a do chão, e os beijos quase nunca eram interrompidos. Apesar de ser um cavalheiro na maioria das situações, Michael era um pouco violento nesses momentos. Grace não se importava, embora, às vezes, quisesse que ele fosse um pouco mais carinhoso. Mas, como ele insistia em pagar sempre quando ia embora, apesar de Grace insistir para que ele não o fizesse mais, ela não se sentia no direito de lhe pedir nada.
Duas horas depois, Grace se aninhava no peito de Michael, enquanto ele fumava um cigarro, como sempre fazia. Depois de um suspiro, ela disse:
- Acho que deveríamos visitar a sua mãe.
O silêncio pairou por alguns instantes, e Michael perguntou seriamente:
- Do que você está falando?
- Faz tempo que você não a vê, não é? Ela sente a sua falta.
A voz de Michael permanecia inalterada.
- Como sabe disso?
- Eu falei com ela.
Michael se afastou de Grace para olhá-la. Sua expressão era séria, mas Grace não sabia muito bem interpretá-la.
- Eu liguei para ela.
Michael semicerrou os olhos e franziu o cenho, e a voz de Grace começou a vacilar ao perceber que, talvez, havia andado por áreas ainda não permitidas:
- Encontrei o telefone na sua carteira.
Michael se levantou da cama e começou a andar pelo quarto, lentamente, de costas para Grace, e ela, rapidamente, se sentou. Sentiu seu corpo dormente por receio de que, talvez, tudo o que ela havia idealizado poderia estar prestes a desmoronar por culpa da sua ansiedade.
- Você pegou a minha carteira?
- Sim, mas não te roubei, ou qualquer coisa, pode conferir aí. Eu... - Ela, então, começou a se sentir intimidada por ele e tentou dar todas as explicações possíveis o mais rápido que podia - Eu só queria saber mais sobre você... É que você nunca me fala nada... Queria saber o seu nome inteiro, o nome dos seus pais... Queria saber onde você mora... Onde trabalha... Eu sempre te pergunto as coisas, mas você não me fala nada...
Michael se virou na direção dela e voltou a caminhar lentamente.
- Só queria saber mais sobre você... Então encontrei um telefone e liguei.
Ele não dizia nada, mas continuava caminhando em direção a ela. Mas algo havia mudado no seu olhar... Aqueles olhos azuis e serenos agora estavam transtornados. Ele era a personificação da fúria, parecia hipnotizado por ela, e fitava Grace de um modo em que ela nunca sentira tanto medo na vida. Ela se levantou da cama, se afastando.
- N-Não foi nada de mais, eu só liguei para ela. Ela me disse que ficou aliviada por você estar vivo.
Ele levantou uma sobrancelha, fingindo surpresa:
- Parece que vocês conversaram bastante.
- N-Na verdade não muito...
Grace encostou na parede e seu estômago embrulhou por perceber que não tinha mais para onde fugir. Estava encurralada, e Michael se aproximava cada vez mais.
- Por favor, não faça nada comigo, Michael.
- Grace... - Ele ficou próximo o suficiente para que os lábios dela pudessem roçar seu nariz sem esforço algum. Suas mãos começaram a acariciar o pescoço de Grace e ela, então, começou a chorar. De arrependimento. A voz dele ficou terna, de repente, e parecia não ter mais nenhum vestígio daquela fúria anterior - Por que você foi fazer isso, Grace?
- Me desculpe... Eu só queria me situar na sua vida.
- Você não pode, Grace, minha querida... Sabe por quê?
Michael encostou seu nariz no de Grace para obter o contato olho no olho:
- Porque você não passa de uma vadia inútil sem valor algum para mim e para o resto do mundo.
As lágrimas de Grace tornaram-se torrenciais, e Michael continuou, ainda com sua voz terna:
- Tratei você bem porque gosto de tratar as pessoas bem... Você quer saber mais sobre mim, Grace? Posso lhe dizer que sou um homem bastante extremista.
- C-Como assim?
- Não gosto que brinquem comigo, sabe? - Michael acariciou o lóbulo da orelha dela, seguindo a linha que vai até o pescoço - Eu posso tratar as pessoas muito bem, mas posso tratar muito mal também. Eu sou encrenca, Grace. Mas eu lhe tratei bem. O que mais você queria?
Grace ficou em silêncio, e era possível ouvir apenas seus soluços.
- Eu juro que não queria machucar você.
- Não estou machucada. - Disse ela, na inocência - Eu posso conviver com isso, prometo ficar longe da sua vida.
Michael alcançou o pequeno rádio que ficava na cômoda ao lado e o ligou. Coincidentemente, tocava a música em que os dois haviam dançado pela primeira vez. Michael adorou aquilo: Mais teatral, impossível. Do jeito que ele adorava.
- Você não está machucada. - Ele deu um leve beijo nos lábios dela - Mas vai ficar.
Grace quis gritar, mas Michael rapidamente sufocou seu grito apertando seu pescoço com toda sua força, enquanto sorria sadicamente. Honestamente, ele não queria que ela fosse mais um número no seu braço. Gostava dela. Ela tinha um corpo perfeito. No começo, ele iria se lembrar do seu nome, mas depois ela se tornaria apenas o número 36, representado por um traço no seu braço direito, junto com todos os outros que ele havia matado por diversos motivos.
Uma vez ela havia perguntado o que significava aquela tatuagem cheia de tracinhos no seu braço. E ele havia respondido somente que era uma satisfação pessoal. E era. Ele se orgulhava daquilo.
E sentia um prazer inenarrável ao matar alguém. Era como um orgasmo sexual.
O rosto de Grace foi ficando muito vermelho, e depois roxo, e suas veias do pescoço e da testa estavam muito saltadas. As mãos de Michael tremiam e ele sorria cada vez mais.
- É triste se tornar mais um número no meu braço, Grace. Não queria esse final para você. Mas não se preocupe, ninguém vai sentir a sua falta.
Grace então soltou o peso do seu corpo, sendo mantida em pé apenas pelas mãos de Michael no seu pescoço. Michael a soltou, e ela caiu no chão. Estava morta.
Ele vestiu suas calças jeans, e depois sua camiseta. Terminou mais um cigarro e então vestiu sua jaqueta de couro. Procurou eliminar todos os vestígios de que ele esteve ali e então partiu deixando o rádio ligado e o corpo de Grace jogado dentro da banheira.
Grace sempre dava a entrada no motel sozinha. Seu nome nunca estivera registrado em canto algum por ali. Estava livre.
Michael ligou o rádio do seu carro e colocou na mesma frequência em que estava no quarto. E então partiu sob a luz da lua, para um destino desconhecido, com apenas uma certeza: Grace não fora a primeira assassinada por ele - os traços em seu braço mostravam isso. E também não seria a última.
Comentários
5 Comentários

5 comentários:

Gabriela CZ disse... Responder

Nossa, Maiti, que conto sinistro. E ótimo! Bem elaborado e surpreendente. Nem sei o que dizer. Adoro a forma como você escreve. Mais uma vez, parabéns! :)

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Belle Bueno disse... Responder

Gostei muito do conto, o clássico "as aparências enganam" mas extremamente original. A riqueza dos detalhes nas descrições muito me agradam. Parabéns pelo conto, prende o leitor, achei incrível.
Um abraço!

http://bellebueno.blogspot.com.br/

Larissa Fonseca disse... Responder

Caramba, Maiti, você escreve muito, MUITO bem! A descrição, a intensidade das cenas, os conflitos, o desfecho... Sua escrita prende o leitor de uma maneira impressionante! E tipo, sei que já elogiei demais, mas faltou elogiar também a escolha das músicas: perfeita.

Michael, com sua aparência e pose de um perfeito cavalheiro e mente doentia. Pobre Grace.

Anônimo disse... Responder

Dahora!

Vitor Costa disse... Responder

Sensacional! De arrepiar, seu conto, ainda mais intenso com a música que escolheu de fundo! Parabéns! Estou adorando seu blog!

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