A Luz que Nunca Apaga

19.7.13

Andavam pelo corredor abarrotado de gente, em sua maioria bêbada, dançando e falando coisas sem sentido, procurando pela saída. Havia algumas pessoas caídas no chão também, o que dificultava a passagem.

Emily precisava sumir dali. Aquele não era o seu tipo de ambiente.
Jimmy ia abrindo o caminho para os dois, empurrando as pessoas, às vezes até com um pouco de violência. Mas as pessoas nem se importavam. Na verdade elas pareciam não sentir nada. Pareciam estar absortas em uma realidade alternativa.
Elas pareciam estar drogadas também, essa era a verdade.
Finalmente encontraram o hall de entrada e a porta de saída. E quando chegaram ali, Emily pôde ter uma visão melhor de alguns cômodos da casa: Estavam completamente destruídos. Ela nem queria imaginar a reação dos pais de Heather quando eles chegassem e encontrassem tudo naquele estado. E eles chegariam quando mesmo? Ah sim: No dia seguinte.
Emily estava tão imersa nos seus pensamentos, observando toda aquela cena, que se assustou quando um garoto trombou nela e tentou levá-la para, não sei, dançar, pelo que parecia, embora seus movimentos fossem completamente descoordenados.
Jimmy entrou em ação, empurrando o garoto e, certamente, teria lhe dado um soco no nariz, se não fosse pela intervenção de Emily ao segurar o braço dele bem na hora.
- Me leve para casa. – Falou para ele, que bufava de raiva.
Jimmy abriu a porta e os dois saíram daquela festa que ela não queria ter ido desde o início. Fora um erro ir até lá. Emily sabia. E mesmo assim ela foi só para ter a oportunidade de ver Alexander por algum momento. Quem sabe conversar com ele... ter a atenção dele por alguns minutos. E talvez até... acontecesse alguma coisa a mais...
Todas essas expectativas foram por água abaixo quando ela o viu numa competição idiota para ver quem bebia mais. E logo depois beijando duas garotas praticamente ao mesmo tempo. E depois cheirando cocaína bem ali na mesa de centro da sala de estar.
Alexander era bonito, mas desprezível. Disso ela também sempre soube, mas precisava tirar a sua verdadeira paixão da cabeça: Seu melhor amigo. Emily jurava que ele jamais havia olhado para ela de forma diferente. Era um sonho inalcançável.
Jimmy abriu a porta do carro para Emily e logo entrou também, assumindo o banco do motorista. Ele ainda parecia estar com raiva de toda aquela situação, então ela tomou a liberdade de ligar o rádio para tentar “descontrair” o ambiente.
O CD do Smiths, The Queen is Dead, que Emily havia emprestado a Jimmy há duas semanas ainda estava lá. Ela ficou muito feliz, pois isso era um sinal de que ele havia gostado.
Tão logo ele deu a partida e ambos já estávamos andando pelas ruas da cidade. Estava escuro e as luzes fascinavam Emily. Sempre a fascinaram.
Eles ficaram em silêncio por alguns minutos e ela ainda pensava na festa e em como ela tinha sido uma idiota, não só por se forçar a ir numa festa que ela não queria ir, mas também por arrastar seu melhor amigo com ela. Mesmo sabendo que a ex-namorada dele estaria lá. Mesmo sabendo que ele queria evitar vê-la ao máximo. Emily havia sido extremamente egoísta.
Ela observou Jimmy por alguns instantes. Ele também parecia estar perdido nos seus pensamentos, tanto que não notou que ela o observava.
Ele tinha os cabelos tão negros como a noite e a pele tão branca como a lua. E os cabelos estavam sempre arrumados em um topete, e isso se devia a sua paixão pelo Elvis. É claro que o topete de Jimmy era bem menor.
A jaqueta de couro preta e os olhos claros, quase sempre semicerrados, lhe davam um completo ar de bad-boy. Mas Emily o conhecia bem o suficiente para saber que ele não tinha nada de “bad” na sua personalidade. Era gentil, amável, muito apegado à família e adorava cachorros. E era lindo.
Aquela garota fora uma imbecil por ter pisado na bola com ele. Jimmy era o sonho de qualquer menina que tivesse cérebro.
Ele era o sonho de Emily.
Ela continuou observando o semblante dele, que parecia uma mistura de irritação e frustração e, apesar disso, a atmosfera no veículo ainda conseguia ser aconchegante, assim como sempre era quando ela estava com Jimmy.
- Não quero ir para casa. – Emily quebrou o silêncio.
Jimmy olhou para ela como quem pareceu não entender.
- Por favor, não me leve para casa. – Ela implorou.
Jimmy voltou seus olhos para a pista e então ela o viu passar direto pela rua a qual ele deveria entrar se fosse levá-la para casa. Emily sorriu.
- Para onde vamos então? – Ele perguntou.
- Eu não sei. Qualquer lugar.
Emily se acomodou no banco do passageiro ouvindo a música e se sentindo bem de repente. Ela não queria voltar, não queria ir para casa. Ela queria ir para qualquer lugar.
- Falando sério, eu não sei onde podemos ir.
- Me leve para qualquer lugar, eu não me importo.
- Por que não quer ir para casa?
- Porque eu quero ver as pessoas e as luzes da cidade.
- Sim, isso fascina você. – Emily pôde ouvir o sorriso na voz de Jimmy e concordou.
Depois de alguns minutos em silêncio, Jimmy falou com a voz ainda tensa:
- Agora está convencida de que aquele cara não é bom para você?
- Estou... E me desculpe por te arrastar comigo. Não devíamos ter ido àquela festa idiota.
- Eu sabia desde o começo, mas você não quis me ouvir. Você nunca me ouve, não é?
- Desculpe... Mas você também não é tão inocente assim.
- Como assim?
- Eu também te avisei que aquela garota não era boa para você, mas mesmo assim você foi em frente e começou a namorar com ela. E eu continuei te avisando e você continuou com ela até quebrar a cara.
- É, eu sei... – A tensão na voz de Jimmy deu espaço ao arrependimento. – Eu também não ouvi você. Mas talvez ela estivesse certa. Talvez eu não seja bom o suficiente...
- Ah, por favor, né, Jimmy? Não acredito que você deu ouvidos ao que ela disse. Da boca dela só sai porcaria. Sempre foi assim. Você se deslumbrou com ela porque ela tem a fama de ser a mais bonita...
- Tem razão. Somos dois idiotas. – Jimmy riu. E Emily teve que concordar. – Mas no meu caso, eu tive que apelar para outra alternativa, já que eu não tenho chance nenhuma com a garota que eu amo de verdade.
Emily não entendeu. Olhou para ele esperando alguma informação mais esclarecedora.
- Eu acho que às vezes – ele continuou, olhando para ela – nós não vemos o que está ao nosso lado.
Jimmy voltou os olhos à pista e Emily parou para analisar o que ele disse. Ela sempre pensou que Jimmy fosse o cara perfeito para qualquer garota. Ele era tudo o que ela queria. Sempre quis que ele também a quisesse, que a enxergasse de maneira diferente.
Será que ele enxergava? Ela estava mesmo entendendo o que ela achava que estava entendendo?
Emily pensava que talvez por serem tão amigos não parecia ser possível que pudesse haver algo além de amizade entre eles, pelo menos não da parte dele.
Mas sim, era possível! Talvez até fosse o certo. Talvez ele também a amasse e ela não estava entendendo tudo errado.
Por impulso, Emily segurou a mão livre dele, que estava apoiada na perna. Ele retribuiu o gesto. Beijou a mão dela e depois voltou a apoiá-la na perna e sorriu para ela. Emily sorriu de volta, incapaz de conter sua felicidade.
Palavras não eram mais necessárias por enquanto.
Emily se sentia bem. Se sentia feliz como há tempos não se sentia. Parecia que tudo iria mudar a partir daquele momento e as coisas finalmente entrariam nos eixos. Porque, por mais bagunçada e imperfeita que fosse a vida dela em casa, ou na escola, agora ela teria Jimmy verdadeiramente junto com ela, em todos os sentidos, como ela sempre sonhou.
Emily estava tão feliz que se o mundo acabasse agora, ela iria morrer com um sorriso no rosto.
- Sabe, – falou – se acontecesse alguma coisa com a gente agora, eu ficaria feliz em morrer ao seu lado.
- O que? – Jimmy riu – Está louca?
- Acho que sim. – Ela riu também. – Eu acho que estou feliz demais.
- Eu também. – Ele beijou a mão dela de novo – Saiba que morrer ao seu lado seria um jeito divino de morrer.
A felicidade de Emily era tanta que ela quase não se deu conta de quando aquele carro passou no farol vermelho, indo diretamente ao encontro deles.
Derraparam umas 4 vezes antes de Emily apagar.

---

- Ei... Emily, acorde. Você está bem?
Emily abriu os olhos e viu Jimmy com a boca sangrando diante dela. Subitamente se lembrou do que havia acontecido e tentou se mexer. Ainda estavam no carro e o rádio ainda estava ligado.
- Você está viva! Graças a Deus!
- Onde estamos? Precisamos sair daqui. – Emily murmurou.
- Sim, precisamos. Vou tirar a gente daqui.
Jimmy tentou dar a partida no carro uma, duas, três vezes. Nada.
- Droga.
- O que aconteceu?
- Não sei. Não pega.
Ele parecia bem, exceto por alguns arranhões. Ela não se sentia muito mal também. Bom sinal.
- Jimmy... – Emily olhou ao redor pela primeira vez. Demorou alguns minutos para se dar conta de onde estavam. E aí entrou em pânico.
- J-Jimmy, nós est-tamos...
- Sim, eu sei. Vou tirar a gente daqui antes de qualquer trem aparecer, calma.
Emily colocou a cabeça para fora da janela tentando ver melhor o local enquanto Jimmy tentava dar a partida. O outro carro que tinha batido neles havia desaparecido. Devia ter fugido. Pelo menos o caminho ainda estava aberto para carros, sinal de que nenhum trem estava próximo.
Emily tentou ficar calma e respirar fundo.
- Merda! – Jimmy xingava enquanto tentava inutilmente fazer o carro funcionar.
Emily ficou observando os trilhos enferrujados tentando não entrar em pânico quando um barulho lhe chamou a atenção.
A cancela estava baixando.
Um trem estava vindo.
- Vamos, Jimmy! Vamos sair daqui!
- Não podemos deixar o carro do meu pai aqui!
- Não temos tempo! Você quer morrer aqui?
Ele tentou mais algumas vezes e nada. Os dois já podiam ver a luz se aproximando.
- Vamos sair daqui. – Jimmy falou com lágrimas nos olhos.
Ele abriu a porta e saiu do carro. Emily tentou sair também, mas notou que estava com o cinto de segurança ainda. Ela tentou soltá-lo... Mas não soltou.
- Jimmy! – gritou.
Ele abriu a porta do passageiro rapidamente e viu seu cinto preso. Os dois tentaram desprendê-lo a todo custo, chacoalhando, puxando, fazendo de tudo. Emily começou a chorar deliberadamente, Jimmy também. Conforme a luz ia ficando mais forte e o barulho mais alto, ambos faziam movimentos irracionais para soltar o cinto, sem perceber. Emily começou a gritar enquanto tentava se soltar. Jimmy começou a chorar mais alto enquanto tentava puxá-la por cima do cinto, mas parecia que algo mais a prendia.
A luz devia estar a menos de 2km deles e eles começaram a ouvir o rangido insuportável do freio do trem.
Não ia dar tempo.
- Corre. – Emily olhou para Jimmy com os olhos completamente cheios de lágrimas. – Corre, não vai dar tempo.
Jimmy olhou-a chorando, incrédulo.
- Corre! – Ela gritou. – Eu te amo.
E então Jimmy correu... para dentro do carro!
- O que está fazendo??? – Emily berrou, desesperada.
- Morrendo ao seu lado. O prazer e o privilégio são meus. – Jimmy falou com a voz trêmula. – Eu também te amo.
Ele segurou a mão de Emily bem forte e fechou os olhos. Ela os fechou também, se prendendo à música que ainda tocava:

There is a light that never goes out...
                           There is a light that never goes out…
                                                     There is a light that never goes out…

Em menos de 10 segundos a luz e o rangido do trem ficaram insuportavelmente mais perto até que desapareceram por completo... Mas só para os dois.
Comentários
10 Comentários

10 comentários:

Gabriela Cerutti Zimmermann disse... Responder

Chorei com esse conto! Sorri nos momentos que citavam o amor dela por ele, mas a tensão dos últimos acontecimentos me fez tremer. O final foi triste e inesperado, bem elaborado. Foi maravilhosamente bem escrito.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Lola Mantovani disse... Responder

Que perfeito, sério tive que ficar alguns minutos depois de ler esse conto pensando no que eu tinha acabado de ler, a vida é tão irônica, quando você consegue o que quer ela te tira.
adorei
beijos

Andressa Pereira disse... Responder

Poxa, poxa... foi incrivelmente lindo.
eu nem sei como dizer, mas chorei e muito kkkk
Céus, eu amei o texto verdadeiramente, fazia muito tempo que não via nada que mexesse tanto comigo quanto este texto.
Foi incrível!
Eu não tenho nem palavras pra descrever, mas foi lindo. Digno de um clip com essa música.
digníssimo!

Identidade Aleatória
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Leandro de Lira disse... Responder

Oi!
Hm... Que interessante! Confesso que fiquei pensativo quando acabei.
A vida é tão imprevisível. Você consegue o que quer e quando menos espera, a vida te tira.
Gostei do texto. (:
Abraço!

"Palavras ao Vento..."
www.leandro-de-lira.com

Karla Cunha disse... Responder

Nossa! Caramba. Comecei a ler achando que era um conto daqueles em que sempre tem uma menina amando o cara errado e chorando. Mas, caramba! Fui bastante surpreendida. Mesmo!
Você escreve muuuito bem, viu!? Muito mesmo!
Parabéns!

www.fizdecanetinha.com

Thami disse... Responder

Que texto lindo! Fiquei refletindo no final dele aqui, demorei até pra formular esse comentário, quase fechei o blog sem comentar porque tava em outro mundo aqui haha. Adorei!

xx,
www.likeparadise.com.br

Anônimo disse... Responder

Você tem um talento enorme, parabéns. não desista de seus sonhos, e quando lançar um livro estarei na fila para comprar ...rsrs.

Ana F.

Pâm Possani disse... Responder

Gente!
Que lindo esse conto :3
QUE ISSO Maiti, magina haha
voce é estudante de Ciencia de Computação?Eu faço Sistemas de Informação ;3
MENINAAA nunca leu NS? preciso ler o tio Nicholas
ah mas eu odeio os filmes dele, geralmente hausdhas #mejulgue rsrs só gosto dos livros #souchata
nhoin que fofa você guria ;D

Um beijo
Pâm - interruptedreamer.blogspot.com.br

Desventuras em Série disse... Responder

Conto bonito demais, Já pensou em escrever um livro? , pois deveria cogitar essa ideia se ainda não pensou. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

Anônimo disse... Responder

Sério.. foi a melhor estória que eu já li. E olha que eu já li muita coisa nessa vida. Me prendeu do inicio ao fim e confesso que chorei no final. Juro que não esperava.
É perfeito. Você deveria mesmo escrever um livro.

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