A Garota da Cafeteria

24.5.13


A sineta soou estridente indicando a entrada de Malory na cafeteria. Ela observou rapidamente o local - mais por costume - pois já sabia exatamente aonde iria se sentar: Quinta mesa, perto da janela, de frente para a porta de entrada.
Ao passar pelo balcão, Malory acenou com a cabeça para a garçonete, como de hábito, e caminhou em direção à sua mesa. Depois de 1 ano indo à mesma cafeteria diariamente e sentando-se à mesma mesa, ela já tinha o direito de chamá-la de “sua”, não tinha?
Com a mochila encostada ao pé da sua cadeira, Malory colocou seu notebook sobre a mesa e o ligou. Enquanto esperava o processo de inicialização do sistema operacional, levantou a manga de sua blusa e observou o relógio de pulso. 12:16. Logo a garçonete – a mesma que Malory cumprimentava todo dia – já estava em pé ao seu lado, com o bloquinho de anotações em mãos.
- Bom dia. O que vai querer para hoje?
- Um Caramel Macchiato. – E depois de uma pausa, finalizou – E um muffin de chocolate.
A garçonete anotou o pedido e saiu logo depois.
Malory fez o login em seu notebook ao mesmo tempo que apanhava um CD da mochila. Hoje seria o Ok Computer, do Radiohead. Ela colocou o CD no driver do notebook e abriu seu player. Plugou os fones e os colocou no ouvido com um volume baixo o suficiente para que ela ouvisse qualquer interferência externa: Não gostaria de parecer mal educada se falassem com ela.
Ela fitava a tela do notebook quando a sineta tocou novamente, anunciando a entrada de alguém. Malory apenas ergueu os olhos por cima do notebook para confirmar quem ela já suspeitava que seria. Então, fitou o relógio do computador, que marcava 12:20.
“No horário de sempre” ela pensou e não pôde deixar de sorrir sutilmente.
Ele entrou no estabelecimento e caminhou em direção a terceira mesa perto da janela, de costas para a porta de entrada – de frente para a mesa de Malory – como de costume. E como de costume, apanhou o jornal e o abriu na primeira página.
A camisa social azul clara, a calça preta e o sapato social lhe davam um ar de responsabilidade e maturidade. Mas seu rosto jovem, com traços marcantes, entregava que ele não deveria ter mais de 25.
Malory o observava discretamente, assim como fazia diariamente há 2 meses, tomando cuidado para não ser pega. Ela era boa nisso. Discrição era o seu “nome do meio” e ela poderia garantir que ele nunca havia apanhado um olhar sequer dela em todo esse tempo. E assim ela ia sustentando essa paixão platônica com alguém que estava tão perto e tão longe ao mesmo tempo.
A mesma garçonete que a havia atendido agora atendia a ele. Ela não podia ouvir seu pedido, mas podia apostar que seria um Café Latte ou um Mocha. Ele não variava muito nas suas escolhas.
Dois minutos depois, Malory já saboreava seu Caramel Macchiato. Seus dedos tamborilavam na mesa ao ritmo de “Paranoid Android” e volta e meia disparava olhares curiosos para a terceira mesa depois da porta. Qual matéria ele estaria lendo?
Sonhadora como era, Malory não podia evitar supor características à personalidade dele. Seria ele um cara sério? Talvez, pois estava sempre com um jornal em mãos. Será que era o tipo de cara rodeado de amigos? Mulheres? Ela não duvidava dessa última possibilidade. Ele era lindo e atraente, e aqueles olhos verdes com certeza funcionavam como ímã para as mulheres. E onde trabalhava? Ele morava sozinho? Que tipo de música ele gostava de ouvir? E o mais importante: Qual era seu nome?
Ela o observou tomar um gole de mocha (sim, ela havia acertado) e foi impossível não sorrir ao ver o bigode de leite em torno de seus lábios. “Fofo.” Ele ergueu a mão para limpar sua boca e foi nesse momento que os olhares se encontraram.
O sorriso bobo de Malory desapareceu instantaneamente e abaixou os olhos rapidamente para o teclado do notebook. Podia sentir o rosto queimar. Droga! Fora flagrada. E o pior, com um sorriso idiota estampado no rosto. O que ele iria pensar? Que ela estava zombando dele? Que ela tinha problemas mentais? Essa última hipótese poderia ser terrivelmente considerada. Por instinto, ela ergueu os olhos novamente de encontro a ele, para se certificar de que ele já estava mergulhado nas páginas do jornal.
Mas isso não aconteceu.
Ele ainda a fitava, dessa vez sustentando um meio sorriso.
Malory sentiu-se corar violentamente. Estava perdida. Dois meses de discrição jogados fora. E ainda por cima, conseguira causa uma péssima primeira impressão. Ela queria sumir dali.
Depois de 5 minutos, ela arriscou olhá-lo novamente. Ficou aliviada quando o viu imerso no jornal, mas foi por pouco tempo. Ele dobrou o jornal e o deixou em cima da mesa, pegando o iPhone e digitando algo. Depois chamou a garçonete, pedindo a conta.
Malory observou as horas e constou que também já era quase hora de ir. Mas só iria depois que ele saísse.
O rapaz levantou-se de sua mesa, passando pela mesa de Malory para ir até o caixa que ficava ao fundo da cafeteria, como sempre fazia. Malory ficou concentrada no seu notebook, mais precisamente no seu blog, como todo dia fazia também, para mostrar que estava alheia ao mundo fora de seus fones de ouvido. Ninguém precisava saber que seu estômago gelava toda vez que ele passava por ela, precisava?
Assim que ele saiu do estabelecimento, Malory desligou seu notebook. Já estava na sua hora também e amanhã seria outro dia.

22:45
A sua boca estava aberta numa expressão de susto, surpresa e incredulidade, tudo ao mesmo tempo. E se recusava a fechar.
Aquele comentário em anônimo enviado as 15:32 daquela mesma tarde só poderia ser algum tipo de brincadeira. Mas... não tinha como. Só podia ser...
Ela releu pela vigésima vez o comentário que nada tinha a ver com o assunto do seu post:

Anônimo:
Há 2 meses observo a garota que apelidei intimamente de ‘Garota da Cafeteria’. Há aproximadamente 1 mês descobri que ela tinha um blog. E há 1 dia resolvi que era hora de me apresentar, pois pela primeira vez seus marcantes olhos castanhos encontraram os meus nesta manhã. Talvez eu não seja tão invisível para você como eu achei que fosse, mas, se eu estiver enganado, permita-me não ser só mais uma pessoa à procura de café e sossego numa manhã agitada. Gostaria muito de conhecê-la melhor... Malory.
Se também quiser... Bem, eu vou tomar a liberdade de me sentar com você amanhã. E se eu for menos interessante do que a música que você ouve todos os dias, pode me expulsar. Só não jogue café em mim. ;)
Até amanhã, Garota da Cafeteria.

Aquilo não era possível. Será que era ele mesmo? Não podia ser...
Mas tinha que ser!
Malory fechou o notebook e deitou em sua cama, no quarto escuro, pensando nas possibilidades e no que aconteceria no dia seguinte. Ela teria a noite toda para pensar, pois era muito improvável que conseguisse dormir.

12:15 do dia seguinte
Malory seguiu sua rotina diária de quinta mesa perto da janela, Caramel Macchiato e notebook sobre a mesa. Não queria parecer ansiosa, não queria que todos notassem o quanto ela tremia. Ela também queria que suas mãos parassem de ficar tão geladas, por favor. Ela queria que ele chegasse logo, mas não saberia o que dizer. E se não fosse ele? E se fosse outro cara? E se ele não aparecesse?
Quando a sineta da porta da cafeteria soou estridente exatamente 12:20, o sangue de Malory esvaiu de seu rosto. Ela fitou a porta e o viu: Camisa social cinza-clara, calça social, sapato e... aqueles olhos verdes olhando diretamente para ela. E foi então que ele sorriu.
Ele começou a caminhar e passou reto pela terceira mesa, indo em direção a ela.
O coração de Malory batia na garganta e ela podia jurar que todos na cafeteria podiam ouvir.
Ele parou em frente a sua mesa:
- Oi. – Ele disse sorrindo.
- Oi. – Ela sorriu também, timidamente.

E esse é o começo de mais uma história de amor como essas que a gente vê por aí, mas com o final feliz...

Penny.
Comentários
8 Comentários

8 comentários:

Lola Mantovani disse... Responder

Que lindo, adorei esse conto, do jeito que sou pessimista achei que teria outro final, mas adorei o que teve.
beijos

Meios Dias Gastos disse... Responder

caramba como você escreve bem, imaginei as cenas e agora quero saber o que vai acontecer depois. ahsuhasuhashas'

Beijinhos!!
Meios Dias Gastos
Curta a FanPage do Blog

Anônimo disse... Responder

Putz, vc tem muito talento, parabéns.

Bia Rodrigues disse... Responder

aiin Mah ~ser maldoso~
Que cafeteria eu vou para me sentar e ser uma blogueira que vai encontrar o amor eiin? :'(
Serio, seu texto me marcou tanto. Ain ><
Esse vai para o Pepper na categoria entre aspas se a senhorita autorizar viu. É o melhor conto que já li. É perfeito e eu ainda estou pensando seriamente em testar todas as cafeterias da região, esperança é a ultima que morre rs

Beijos (Saudade master, preciso conversar contigo no facebook, quero ir no show do Bon Jovi, me leva? :3)
Pepper Lipstick

Thami disse... Responder

Que lindo esse conto! Imaginei um daqueles filmes de romances americanos, porque é bem raro ter cafetaria por aqui né, e quando tem nem é frequentada pela manhã, só de tardezinha assim e tal. Quem dera se comigo fosse assim, tudo tão natural e fofo :') Adorei!

Xx
www.likeparadise.com.br

Fer Dallan disse... Responder

Obrigada ♥.♥

Adorei o texto *-*

Instagram: ferdallan
http://www.leferblog.com.br

Pérola Santiago disse... Responder

Lindo seu texto!!!

bjus

www.borboletamaquiada.com

Larissa disse... Responder

Sua bobona, que conto mais lindo.
Foi escrito de uma forma simples, mas que me encantou. Parece alguns livros ou filmes *o*

Beijão, Lari.♥
Vitamina de Pimenta
@laricrazy_

Postar um comentário

Evite comentários Ctrl+C Ctrl+V, pois os mesmos não serão respondidos. Não se esqueça de deixar o link do seu blog para que eu possa retribuir a visita! :)

 
© Ultraviolence - 2014. Todos os direitos reservados.
"Listen to the silence, let it ring on."
imagem-logo