Changes

4.5.18


I still don't know what I was waiting for

And my time was running wild
A million dead-end streets
Every time I thought I'd got it made it seemed the taste was not so sweet...

Esse mês faz 1 ano que eu estou morando num apartamento com a minha mãe, numa cidade em que eu sonhava voltar desde o dia em que eu saí aos prantos, com 8 anos. Foram 14 anos morando num lugar que eu não gostava, mas acompanhando a minha família... o que faz parte da dependência que temos quando somos crianças. Mas eu sempre tive muitas ideias, muitas vontades. E muitas delas não mudam enquanto eu não as realizo. E aí tudo muda novamente.
Eu sou um ser completamente mutável. Mas será que não somos todos?
O que muda, talvez, seja só o medo da mudança...

So I turned myself to face me
But I've never caught a glimpse
Of how the others must see the faker
I'm much too fast to take that test

Então lá estava eu, com 23 anos, pensando em todas as coisas da minha vida e o que me fazia continuar ali onde eu estava: num emprego que era bom, mas o salário e o aprendizado não satisfazia as minhas necessidades profissionais no momento, morando num lugar que eu, honestamente, não gostava desde sempre... sem um relacionamento promissor ou qualquer amarra que me prendesse a tudo aquilo. Então... por que não mudar TUDO?

Ch-ch-ch-ch-Changes... Turn and face the strange
Ch-ch-Changes... Don't want to be a richer man
Ch-ch-ch-ch-Changes... Turn and face the strange
Ch-ch-Changes... Just gonna have to be a different man
Time may change me... But I can't trace time

Foi aí que eu decidi que mudaria: Desde emagrecer alguns quilos que não me faziam feliz até mudar de cidade, de emprego, a cor do cabelo, tudo... Tudo o que eu queria profundamente. Voltei para a cidade que eu adorava, trabalhei na cidade que eu sempre quis, conheci lugares, conheci um estilo de vida totalmente novo, e ao qual eu me adaptava finalmente... Sabe o que é você se sentir a vida toda que não se encaixa em canto algum e de repente parece que tudo começa a entrar nos eixos?
Foi aí que eu descobri que o céu é realmente o limite. Mas faltava algo...

I watch the ripples change their size
But never leave the stream
Of warm impermanence and
So the days float through my eyes
But still the days seem the same

Uma mudança só é boa quando não é uma fuga, e sim um complemento para o seu momento atual ser pleno. E até que ponto aquela minha mudança era só um complemento?
Só eu sabia outros conflitos que se passavam dentro da minha mente e do meu coração, então posso afirmar que isso era um misto das duas coisas: um complemento sim, mas também não deixava de ser uma fuga de conflitos internos. E aí, quando parei para aceitar isso tudo, fui entender que lugares não vão mudar o que está dentro de nós se as coisas não estão muito bem.
Mas eu podia lidar com isso. Eu ia lidar com isso.
Porque nós nunca sabemos a força que temos até sermos colocados à prova.

And these children that you spit on
As they try to change their worlds
Are immune to your consultations
They're quite aware of what they're going through

Foi encarando de frente todos os fantasmas do meu passado que eu também tive uma mudança gigantesca dentro de mim, como ser humano, reflexo de muitas coisas que passei e me levaram praticar a fundo o auto-conhecimento. 
Não foi fácil. Muitas vezes eu chorei procurando respostas e aos poucos as fui encontrando... Fiz um trabalho enorme dentro de mim... comecei a praticar meditação, a entender melhor como a minha cabeça funcionava, o que eu sentia e por que sentia, compreender como a cabeça dos outros funciona para compreender também suas atitudes tentando ao máximo não julgar ninguém... ter mais empatia, encontrar definitivamente a minha espiritualidade, me conectar com o meu eu, que, no fim das contas, é tudo o que eu tenho essencialmente.
E hoje, 1 ano depois, ao olhar para trás e ver quanta coisa mudou, eu me orgulho imensamente de toda essa trajetória que era necessária para a minha evolução - espiritual, profissional, etc... E agradeço por cada coisa - boa e ruim - que passei, pois tudo isso fez eu me tornar a pessoa que sou hoje (frase clichê, mas só quem já passou por mudanças grandes sabe o peso enorme que ela tem).

Eu mudei de cidade, de emprego, de casa, de cor do cabelo... mas a maior mudança - a mais estratosférica e importante -, foi dentro de mim, como ser.

Um Olá Depois de 1 Ano

23.1.18

Ahoy!
Eu sumi daqui. Eu sei.
Mas 2017 foi incrível. Tão cheio de mudanças, todas maravilhosas, cada uma agregou algo essencial na minha vida.
Eu gostaria de listar tudo o que aconteceu aqui agora, mas não farei isso no momento porque vai ter uma postagem especial para isso. E, na verdade, ela é muito mais do que especial.
Em 2012 eu escrevi uma carta para a minha "versão" de 2018. 6 anos se passaram... Eu nem sabia se esse blog ainda existiria quando 2018 chegasse... nem sabia se eu existiria ainda (mas sempre acreditei que sim kkkk)... Escrevi todas as minhas expectativas de vida naquele ano, como estava a minha vida e o que eu esperava que acontecesse e não li nunca mais. Juro, não me lembro quais eram as minhas expectativas, mas tenho certeza que eu não esperava nada do que aconteceu todo esse tempo.
Estou ansiosa para reler a carta e respondê-la aqui. Mas farei isso no momento certo, e o momento não é hoje. Mas vai ser logo, prometo.

É isso, por enquanto.
E Feliz 2018 super atrasado ;)

Maiti.

O Jovem Poeta Morto

30.9.16

Ainda me lembro de quando ele nos recitava versos. Causava-me nas veias um efeito lancinante; sua interpretação fascinante possuía uma emoção que poderia ir facilmente do romântico ao soturno. Dependendo do que os versos lhe diziam, as suas palavras nossas mentes conduziam. Ninguém melhor do que Neil para recitar seus próprios poemas.
Ele dizia que a branca e pequenina lua era sua maior inspiração, pois ela o observava sem julgá-lo por suas escolhas enquanto escrevia as mais singelas rimas. No entanto, não se preocupava com métricas: sua poesia vinha solta, livre de qualquer rótulo ou regra. Ela vinha na forma mais simples, e, talvez por isso, a mais bela: tão pura como o bem que está nos puros.
Entretanto, não eram todos os ouvidos que se deliciavam com aqueles versos, nem todos os corações eram acalentados por eles. Havia um coração, em específico, que se enojava daquilo tudo e acreditava que a poesia e a arte não passavam de perda de tempo.
Era esse o sr. Perry, homem de negócios, muito ocupado com questões financeiras da vida para apreciar os pequenos prazeres que a mesma lhe tinha a oferecer. Apesar de estar no mundo dos negócios, sua realização pessoal sempre fora tornar-se médico: coisa que não se concretizou devido a falta de verba da família em bancar seus estudos. Não obstante, tornou-se um homem muito bem sucedido, com o propósito de poder financiar os estudos de seu progenitor na medicina e, assim, realizar-se pessoalmente - erro de muitos pais que persiste, infelizmente, até os dias de hoje.
Por esse motivo, Neil escondia sua arte de seu pai o máximo que podia, sendo venerado por estranhos, mas menosprezado pela própria família, visto que sua mãe, por ser uma mulher que deixara a humildade transformar-se em ignorância, acatava fielmente às opiniões do marido.
Por fim, escondido da família, Neil fez testes para um papel em Sonho de Uma Noite de Verão no teatro da universidade, o qual não apenas passara como conseguira o papel principal.
No dia de sua apresentação, a mostra fora estupenda. Neil havia se destacado como protagonista, transferindo sua alma para a arte que tanto amava, de tal forma que fora ovacionado por vários minutos ao final do espetáculo.
O sucesso chegara também aos ouvidos de seu pai e poderia ter sido o suficiente para convencê-lo...
...mas louças foram quebradas na casa durante seu ataque de fúria quando Neil chegara após a peça.
Lágrimas vieram aos olhos do poeta quando este tentou explicá-lo o motivo daquilo tudo, e como a arte era capaz de tornar nossa existência valiosa, deixando de lado a letargia em que vivemos. Mas nada mudaria a decisão de seu pai: O garoto agora estava fora da Welton e seria transferido no dia seguinte para uma escola militar.
Desolado com o futuro tão distante dos seus sonhos, sufocado pelo autoritarismo e cobrança do pai e reprimido pela ausência de liberdade, Neil prefere não existir se não puder viver.
Então ele apanha a pistola do pai...
Se posiciona em frente a janela do quarto...
Sente a brisa gelada da noite na pele pela última vez.
O barulho faz os pais irromperem no quarto e se depararem com a trágica cena. A dor era atroz no coração de ambos, que nunca desejaram tanto que aquilo fosse uma interpretação artística apenas.
E seu pai, que outrora se amaldiçoava por ter um filho com o lado artístico predominante ao lógico, agora lamentava ter sido tão intransigente para com o mesmo. E nem adiantaria tentar reparar seus erros agora: a partir daquele momento, o jovem poeta deixara de existir para sempre, restando apenas a essência de sua alma viva em suas poesias.

***

Conto baseado no personagem Neil Perry, do filme Sociedade dos Poetas Mortos, de 1989.
 
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